Plata (2012) – 2ª Expedição Internacional da Associação Caxiense de Montanhismo

No início de 2011, tive a oportunidade de visitar o Cordón Del Plata, localizado na cordilheira central da Argentina, pela terceira vez, com o objetivo de praticar montanhismo em grandes altitudes. Durante essa visita, conheci um grupo de aproximadamente 18 pessoas vindas de Curitiba/PR, que haviam chegado ao local de ônibus. Foi nesse momento que surgiu a ideia de organizar uma expedição internacional da Associação Caxiense de Montanhismo ao Cordón Del Plata, programada para janeiro de 2012.

O Cordón Del Plata está localizado na cordilheira frontal, próximo à cidade de Mendoza, a uma altitude de cerca de 2.800 metros. Nessa região, existem diversos refúgios acolhedores que oferecem conforto nos dias que antecedem a escalada aos acampamentos superiores, conhecidos como “Las Veguitas” (3.200m), “Pedra Grande” (3.500m), “El Salto” (4.200m) e “La Hoyada” (4.600m).

Inicialmente, mais de 20 pessoas demonstraram interesse em participar da expedição, cogitando-se inclusive o aluguel de um ônibus para o transporte até os refúgios. No entanto, à medida que o final do ano se aproximava, o grupo foi se reduzindo, e, no fim, apenas 9 pessoas confirmaram presença: Eu (Lucas Hainzenreder Longhi), Guilherme Dalcegio, Mauro Bertelli, Cauê Pratavieira da Silva, Éverton Toigo, Agnes Pozenato, Thomas Schulze, Camila Schulze e Marcelo Nava. Alguns membros do grupo optaram por viajar de avião, enquanto outros escolheram ir de carro. A logística da expedição foi sempre discutida e planejada por todos os participantes, a maioria dos quais nunca havia experienciado o ambiente de alta montanha anteriormente. Realizamos diversas reuniões prévias à viagem, tanto para acertar os detalhes quanto para organizar nossas mochilas.

Os preparativos foram cansativos, mas a viagem foi um sucesso. Todos nós aproveitamos e aprendemos muito sobre o montanhismo em altas altitudes e sua logística. Gostaria de expressar meu agradecimento a todos aqueles que participaram dessa viagem e depositaram em mim sua confiança para a organização geral. Embora não tenhamos alcançado o cume, como desejado, as experiências vividas durante a jornada até as alturas foram inesquecíveis. Mais importante do que estar na montanha é estar na montanha bem acompanhado, com verdadeiros parceiros de escalada.

Abraços, Lucas Hainzenreder Longhi

Segue o diário da viagem escrito pelo Éverton Toigo.

DIÁRIO DE VIAGEM
Por Everton Toigo

17/01/12 – Primeira noite no refúgio… A temperatura está muito agradável. Estamos todos alojados no mesmo quarto com 5 beliches. Pegamos um 4×4 de Mendoza até aqui. Foram aproximadamente 3h de viagem. Chegando aqui no “Refúgio da Universidade de Cuyo” comemos um lanche e seguida fomos dar uma caminhada para aclimatar. Fomos até Las Veguitas que é o local do primeiro acampamento. Foram aproximadamente 2 horas de caminhada para chegar lá. Retornamos, comemos uma massa e bolamos a estratégia de ataque ao cume. Aproveitei a noite para tomar muito líquido, pois minha cabeça estava doendo um pouco. Não sei se foi desidratação ou efeitos de altitude mesmo… No refúgio estamos a 2700m. Na caminhada até Las Veguitas fomos até 3130m de altitude. A estratégia de ataque foi alterada do plano inicial, pois pensávamos em utilizar mulas para levar material pesado até o acampamento de El Salto, porém o serviço está complicado esse ano. Em função disso estamos pensando em subir até 4000m de altitude amanhã, mas sem peso, e no outro dia iniciar uma escalada alpina até o cume. O grupo está bem animado. Espero que continue assim… Bem agora vou dormir porque estou apenas com a headlamp ligada e um mosquito insiste em bater na minha cara.

18/01/12 – Hoje tivemos um dia muito bom também. O tempo colaborou, porém ele muda muito rápido na montanha. O céu está aberto e em 5 minutos pode vir um nevoeiro que deixa ele fechado e com visibilidade de 20m. A ideia para hoje era ir até uns 4000m de altitude. Saímos do refúgio com mochilas de ataque e apenas alguns lanches para comer no caminho. Fomos até Las Veguitas e de lá até Piedra Grande, à 3560m. Estávamos bem e poderíamos ir até 4000m, mas preferimos não forçar tanto. Ficamos 1 hora parados e em seguida iniciamos a trilha de descida por outro caminho, que deu em Veguitas Superior. Na descida o Cauê não se sentiu muito bem. Dor de cabeça e um pouco de enjoo. Espero que ele fique bem para avançarmos conforme o planejado amanhã. A mochila já está pronta (bem pesada) e agora iniciaremos uma escalada sem volta ao refúgio. Iremos subindo e tentaremos atacar o cume no dia 23 ou 24. A sim, soubemos de uns argentinos que regressaram hoje da investida, mas que não tiveram sucesso em função da grande quantidade de neve na parte final da montanha. Segundo eles estava na cintura. Nossa esperança é que o tempo melhore e ela reduza até o dia da nossa investida. Bem, estou me sentindo muito bem. Até o momento meu corpo tem se comportado como eu gostaria. Hoje particularmente me senti bem melhor que ontem. Agora estou indo me deitar para descansar bem. Amanhã será um dia puxado.

20/01/12 – Hoje estou escrevendo de um acampamento sem nome a 3460m de altitude, que fica entre Veguitas Superior e Piedra Grande. Optamos por este local porque Piedra Grande fica longe da água. Estou na companhia do Lucas Longhi, Guilherme Dalcegio e Mauro Bertelli. Nós chegamos ontem a tarde e vamos ficar no dia de hoje por aqui para aclimatar. Até agora estamos todos muito bem, tanto físico quanto mentalmente. A maior ocupação aqui é fotografar algo diferente, observar outros montanhistas, buscar água e fazer comida. O Cauê está no refúgio. Ele está bem, no entanto com receio de vir até aqui e sentir o enjoo novamente. Tentamos convencer ele a subir através de um contato feito pelo rádio, mas ele optou por ficar no refúgio fazendo outros picos e voltando lá para dormir. O plano dele é fazer uma única investida do refúgio até o cume de alguma montanha acima do acampamento de El Salto. A Agnes também está no refúgio com um pouco de dor nos joelhos. Acho que ela vai ficar por lá fazendo escaladas curtas e voltando ao refúgio para passar a noite.

21/01/12 – Depois de 5 horas de caminhada maçante, finalmente eu, Lucas Longhi, Guilherme Dalcegio, Mauro Bertelli e Marcelo Nava chegamos em El Salto a 4200m. Sem dúvidas esse trecho exige muito mais fisicamente. A inclinação da parte final associada à altitude são as responsáveis pelo desgaste. Logo na chegada começou a nevar. Montamos as barracas sob um frio intenso, pois estávamos molhados pelo suor do corpo. A intenção agora é tentar se aclimatar por aqui e passar a noite da melhor forma possível. Hoje vou escrever pouco, pois realmente estou muito cansado.

22/01/12 – A noite que passou foi muito fria, mas tranquila. De manhã se toma vários banhos de gotas que condensam no teto da barraca. É ruim, mas motiva a sair do saco de dormir e, é claro, da barraca. O amanhecer em El Salto é lindo. As nuvens formadas ficam abaixo de nós e, portanto, o sol brilha num céu limpo. Acima do acampamento podemos ver o Rincon, Vallecitos, Lomas Amarillas e o Portezuelo. É uma pena que próximo às 11h o tempo fecha muito e o sol se esconde nos fazendo sentir muito frio. O nosso grupo está bem. Nenhum de nós apresentou mal de altitude. Isso é algo muito bom! O pessoal que estava acampado nesta área do El Salto baixou hoje. Só estamos nós e uma barraca de argentinos. Nas conversas que tivemos com outros montanhistas, muitos optaram por fazer o Vallecitos porque o Plata está muito nevado. Segundo eles, em 10 dias apenas um montanhista fez o Plata. Como a intenção é passar o dia aqui e tentar na madrugada fazer ataque ao cume (Plata ou Vallecitos, sendo que iremos decidir no Portezuelo), optamos por subir alguns metros a tarde até encontrar uma encosta nevada e lá treinar com os crampons. O instrutor Mauro Bertelli foi impecável. Repassou parte de seus conhecimentos adquiridos em cursos, ensinando várias técnicas de subida e descida utilizando crampons. Cada uma com suas particularidades, prós e contras. Retornamos do treino aí pelas 17 h sob uma nevasca. Só deu tempo de retirar as coisas molhadas e entrar no saco de dormir para se aquecer. Como não tínhamos sono, o Bertelli, companheiro de barraca, ficou explicando como o clima ia funcionando, baseado em experiências anteriores em outras montanhas. Tentamos ainda contatar com o Cauê e Thomas no refúgio as 19 h e 21 h, mas não tivemos sucesso. Por hoje era isso. Já jantamos e agora vamos deitar para descansar, afinal esta madrugada teremos o ataque ao cume.

23/01/12 – Nossa intenção era fazer ataque ao cume nesta madrugada, porém o tempo feio não deu trégua. Nevou muito e a vista que tínhamos do acampamento eram de montanhas bem cobertas pela neve. Seria muito ruim sair daqui sob essas condições. Como temos mais um dia extra, ficamos aqui esperando o tempo melhorar. Tivemos muito tempo no dia de hoje e então aproveitamos para rever o planejamento de ataque ao cume e também o que levar como lanches, roupas, equipamentos, etc. Ficou tudo acertado. O ataque terá que ser essa madrugada, pois pretendemos baixar quarta já que o transfer vem nos buscar no refúgio na quinta. Hoje conseguimos contato com os amigos Cauê e Thomas. Eles estão no refúgio e planejam sair as 21 h de lá com as mochilas leves tendo como destino o cume do Lomas Amarillas. Com certeza será um desafio físico e mental fazer uma única e contínua investida. Eles pretendem chegar em El Salto entre 3 e 4 h da manhã. Neste momento eu, Lucas, Mauro, Guilherme e Nava já estamos em nossas barracas jantados e prontos para descansar. O relógio está ajustado para despertar 4 h da manhã. Nossa intenção é sair as 5 h. Estou com muita coisa no saco de dormir para não congelar. Até as botas estão aqui, pois nos dias anteriores quando acordava com os pés quentes e colocava a bota que estava no avanço da barraca, em pouco tempo já sentia o frio nos pés. Por hoje é isso. Estamos com muita expectativa para o ataque. Creio que não consiga dormir direito.

24/01/12 – O dia de hoje foi muito agitado… Aproximadamente 1 hora da madrugada iniciaram ventos muito fortes. Embora não tivesse aparelhos para medir com precisão, os mais experientes apontaram rajadas com velocidade de aproximadamente 100 km/h. O vento ficou forte até o amanhecer e se estendeu pelo dia, mas com velocidades mais baixas. O Mauro saiu duas vezes da barraca durante a madrugada para revisar as amarras e por menor que fosse o tempo que ele ficava exposto ao tempo, já era suficiente para ele voltar com gelo acumulado sobre seus cílios. Não consegui dormir bem esta noite. A cascata próxima ao acampamento que era o local onde buscávamos água ficou completamente congelada. As barracas que eu, Lucas, Mauro e Guilherme estamos são especiais para alta montanha então suportaram bem as condições de vento, mas o Nava estava com uma barraca mais comum, com apenas algumas adaptações para a montanha. Em função disso ele ficou toda madrugada acordado, se movimentando de um lado para o outro da barraca, utilizando seu corpo como estrutura auxiliar para evitar que a mesma se destruísse. Esses ventos atrapalharam os nossos planos de ataque, pois só tivemos como sair das barracas as 9h, ou seja, 4 horas após o planejado. O Cauê e o Thomas levaram a pior: eles pegaram toda essa tempestade na trilha. Chegaram a subir acima do acampamento de Piedra Grande ficando expostos a rajadas de vento e temperaturas de aproximadamente -25 °C o que tornou impossível prosseguir. Até tentaram bivaquear para se proteger do vento. Ficaram em torno de 1 hora esperando, mas o frio passou a castigar ainda mais o corpo. Por incrível que pareça o Thomas conseguiu até dormir sob essas condições. O Cauê estava com 4 luvas e mesmo assim sentia os dedos congelando. Não tinha mais condições. Era hora de baixar. Na madrugada e durante o dia tentamos inúmeras vezes contatar eles pelo rádio, mas não tínhamos nenhum sinal. Inclusive deixamos o rádio ligado continuamente, coisa que não fazíamos até então para poupar as pilhas… Bem, as 10h o acampamento em El Salto começava a dar sinais de vida com o sol aparecendo e o vento um pouco mais fraco. Por ser a última chance, tomamos então a decisão de subir até onde pudéssemos. Nessas alturas o Nava já tinha desmontado sua barraca pra ela não voar. Iniciamos a subida as 11h e apuramos o passo o máximo que conseguíamos. Em pouco tempo de caminhada já sentíamos a respiração ofegante e o cansaço tomando conta do corpo. Reflexo do ritmo acelerado de subida. Éramos as únicas pessoas que estavam subindo naquele dia, pois não víamos nenhuma pegada nos pontos de neve. Chegamos ao acampamento de La Hoyada a aproximadamente 4700 metros. De lá o Guilherme e Mauro optaram por baixar. O Nava baixou até um pouco antes, pois estava exausto pela noite que passou acordado segurando a barraca. Eu e o Lucas optamos por continuar subindo. O excesso de esforço associado a altitude nos fez sentir dor de cabeça e alguns enformigamentos. Paramos então para fazer um lanche e tomamos uma aspirina cada. Se sentindo um pouco melhor, continuamos a subir e 4h25min após sair de El Salto, ou seja, as 15h25min chegamos ao Portezuelo a 5150 metros de altitude. Eu nunca tinha estado num lugar parecido então fiquei fascinado com a visão que tive de lá. O céu estava limpo e podia ver os cumes do falso Plata, Vallecitos, Rincon e Lomas Amarillas. Bem ao fundo podia observar o cume do Aconcagua. Poder ver todas essas montanhas daquele ponto me deixou emocionado. Até o Lucas, que já tinha estado lá antes ficou empolgado. Nós comemoramos a aventura e fizemos algumas fotos. Fizemos ainda um contato por rádio com o Mauro e explicamos que a nossa intenção era baixar até o refúgio ainda no dia. Ele falou com o Guilherme e eles encararam a empreitada. A essas alturas eles já estavam em El Salto, então arrumaram as coisas e iniciaram a descida. Deixaram uma barraca montada com as coisas minhas e do Lucas. Nós chegamos em El Salto as 17h10min. Arrumamos todas as coisas e 18h em ponto começamos a baixar. Quando estávamos em Piedra Grande a 3500 metros o corpo começava a dar os sinais mais fortes de desgaste físico. Estávamos realmente muito cansados, mas felizes. Pelo rádio falávamos com o Mauro e Guilherme que desciam mais a frente. Falávamos ainda com o pessoal do refúgio (Thomas, Cauê e Camila). Eles se propuseram a fazer uma janta e nós, é claro, aceitamos. Pedi até cerveja, na brincadeira, mas o Thomas levou a sério e deu um jeito de conseguir em outro refúgio. Finalmente as 21h35min, já com passos bem lentos e muitas dores nas pernas chegamos no refúgio. Tínhamos baixado 2450 metros. A recepção foi espetacular. O Thomas, Camila, Cauê, Fernando (responsável pelo refúgio) e um casal de argentinos que estava em El Salto e também baixou no mesmo dia, estavam nos esperando já com a comida encaminhada e com o mate pronto. Fomos então tomar banho. Até o banheiro feminino foi temporariamente dirigido a nós. Afinal eram 6 dias que não nos lavávamos decentemente. Depois do banho, o Thomas e a Camila nos fizeram os exercícios de alongamento, que ajudaram muito a relaxar o corpo. A massa com alho feita pela Camila e as pizzas feitas pelo casal de argentinos estavam ótimos. Aproveitamos também para conversar com o Cauê e Thomas para saber o que tinha ocorrido na investida deles. Depois dos papos em dia, nos deitamos em confortáveis camas. Alguns dias em barracas nos fazem valorizar o conforto de casa, por mais simples que ele seja. Hoje vou dormir com o corpo cansado, mas com a mente tranquila e feliz… Embora o tempo não tenha colaborado, tudo o que fiz hoje me fez sentir emoção e prazer. Não sabia como iria me sentir, pois esta foi minha primeira experiência, mas posso dizer que gostei muito de estar aqui e que pretendo voltar outras vezes para esta e também outras montanhas.

Gostaria de agradecer aos sócios da Associação Caxiense de Montanhismo: Lucas Hainzenreder Longhi, Mauro Bertelli, Thomas e Camila Schulze e a associação, é claro, pela oportunidade de estar junto à eles, experientes, nesta expedição. Não tenho dúvidas de que sem a ajuda deles a logística desta viagem teria sido muito, mas muito mais difícil. Agradeço em especial o Mauro, companheiro de barraca pela paciência e ensinamentos passados. Agradeço o Lucas e Guilherme pelo companheirismo durante todos os dias da expedição. Agradecer ao Cauê pelo apoio e também o convite inicial para esta aventura. Obrigado, Thomas e Camila, pelo suporte e informações. E, por fim, agradecer minha família e amigos pelo apoio dado e é claro a Deus, por me dar todas as condições de tornar essa aventura possível.

Confira imagens da expedição:
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