Ano passado eu já havia estado na região de Urubici (SC), próxima à Serra do Corvo Branco. Ali, um uruguaio muito gente boa, o Juan, montou um refúgio de montanha, bem próximo onde já parece ter sido demarcada a área para um futuro parque nacional, o Campo dos Padres. A área é privada, e a boa vontade dos donos (O Juan só é dono do refúgio), parece variar mais com a fala de quem alerta o fato. Pela segunda vez, andei por lá sem nenhum problema. Como a previsão era de chuva, de quinta a sábado (e não ia dar muita escalada por aqui em Caxias), eu botei pilha no Juliano Perozzo, da Associação Caxiense de Montanhismo, para irmos acampar e dar uma banda pela região. Marcamos para sair quinta, na hora do almoço, mas como chovia a cântaros, só saímos às cinco da tarde. Paramos em Vacaria, para comprar singelos 9Kg da melhor maçã que já comemos. Seguimos por Lages, Urubici e de lá, são mais 30Km de estrada de terra bem conservada. Chegamos tarde, e as chaves do refúgio se encontravam simpaticamente na porta à nossa espera. Na manhã seguinte, demos um rolé, pela parte baixa, no vale do Rio Canoas (principal afluente do rio Uruguai) que nasce na parte alta dos campos.
Lá, vimos a Pedra da Águia, uma imponente formação arenítica, de cento-e-poucos-metros. Resolvemos subir o colo da montanha, pela face norte (junto ao rio Canoas) varando bambuzal, pois não há trilha de acesso. Chegando à crista, notamos que o arenito era de fato muito mole e que qualquer tentativa de alcançar o cume pode implicar em grande impacto na formação. A vista foi maravilhosa, pois agora deslumbrávamos o vale do Canoas e o lado da face sul da pedra. Depois de muita contemplação, e a polêmica sobre designar os “periquitos” como maritacas ou caturritas, descemos pelo outro lado da colo, encontrando vez por outra, uma floresta de xaxim que nos aliviava do bambuzal. Na noite de sexta para sábado, São Pedro mostrou ao que veio e a chuvarada caiu a noite inteira até ao final da manhã. Havíamos impresso as imagens de satélite do Google Earth, e iríamos tentar seguir para o cânion do Espraiado, por um caminho (embora imaginássemos, não sabíamos se havia caminho) que acessava a borda direita do cânion (a partir do vértice), em um ponto bem distante do vértice. O caminho usual segue o vale do Canoas e sobe por uma trilha (na verdade uma péssima estradinha de terra, desafiadora para os melhores 4×4, até um trecho) até próximo ao vértice. Tomamos a trilha na face sul da Pedra da Águia e subimos, subimos, subimos….passamos um mangueiro, umas vacas soltas, pulamos algumas cercas e subimos, subimos, subimos, sempre debaixo de uma chuva fina.
Por fim, chegamos a uma matinha, que parecia (muita neblina e pouca visibilidade) se estender até a borda, já próxima. Tomamos à esquerda, pulando mais uma cerca, e seguindo pela trilha dos bois. Por este caminho, percorremos um lindo trecho aberto de campo, onde podíamos ver ao longe à esquerda, o cânion do Canoas e a crista dos morros por onde segue o caminho usual, e à direita, a borda do Espraiado. Voltamos à mata e em um determinado instante, a trilha apresenta uma bifurcação à direita, que segue até uma das primeiras “torres” do cânion. Nós continuamos e em pouco tempo, chegamos a uma área descampada, já na borda direita do dito cujo. O tempo começava a dar sinais de melhora, mas a ventania era medonha. Aos poucos a paisagem se abria num canto, fechava em outro, mas conseguimos ver a imponência do Cânion do Espraiado.
Pausa para o lanche (maçãs, maçãs e mais maçãs!) e continuamos em direção ao vértice. Embora quiséssemos continuar pela borda, os vários recortes e a presença de rios, nos forçaram em alguns momentos a nos embrenhar pelas matas de bambu (argh) e xáxim (ahh!). Com isso, nos afastamos mais do que pretendíamos da borda do cânion, indo encontrar a trilha usual, que sai em outro mangueiro, já próximo ao vértice. Um pouco a direita do vértice, um pouco acima do encontro de dois pequenos rios, encontramos uma área excelente para acampar, já às 18:00. Após o farto jantar de macarrão integral, proteína de soja, queijo, e sobremesa (maçãs, claro!), olhamos para cima e o céu, sem uma nuvem! A lua crescente nos dava uma bela iluminação, mas o frio e a ventania não nos permitiam tanta contemplação. Durante a noite, o vento realizou um belo teste da minha megasuperultraplusbarracanova Tabajara! No dia seguinte, colhemos o fruto de 2 dias de caminhada sob chuva: Nenhuma nuvem no céu e excelente visibilidade. Da barraca mesmo, era possível avistar a estrada da serra do Corvo Branco, que desce ao litoral, serpenteando a serra catarinense, um pouco ao norte da mais famosa estrada do Rio do Rastro. Caminhamos primeiro pelo trecho da borda direita, próximo ao vértice, onde se encontram duas torres colossais! Retomamos o caminho da borda esquerda, seguindo direto ao ponto mais elevado e distante da borda. A impressão era a de avistarmos todo o estado de Santa Catarina! De lá víamos o morro da igreja, considerado o ponto mais frio do Brasil. Voltamos margeando toda a borda esquerda do cânion, com aquela sensação de termos sido abençoados pela mãe natureza. A barraca já havia sido desmontada e devidamente malocada num mato próximo. Após eu (mais uma, de incontáveis vezes), esquecer alguma coisa fora da mochila, partimos lá pelas 17:20 horas, para a caminhada de retorno. Pegamos o caminho usual de acesso ao cânion, e quando o sol se pôs, a lua crescente, que nascera já no meio da tarde, nos iluminou o caminho. Da trilha, no lusco-fusco, ainda avistamos o rio Canoas em seu cânion.
Antes de chegarmos a parte baixa, junto ao rio, estávamos apreensivos pela presença búfalos, que são criados no local, mas os bichanos se comportaram como lordes. Chegamos ao Refúgio às 20:00, exaustos (eu particularmente) e extasiados com o espetáculo da natureza. O Juliano, como nas outras noites que passáramos no abrigo, se deu ao trabalho de deixar o fogãozinho à lenha “bombando”, o que foi, literalmente, o ouro! Mais uma orgia alimentar, a base de macarrão, ovos e maçãs. No dia seguinte, acordamos cedo e o espetáculo era o campo coberto de geada. Deu -2 graus à noite no refúgio. Seguimos até Urubici, tomamos café e me caiu a ficha que havia esquecido o celular no refúgio, putqparghgrunch!, seriam mais 60Km, não antes de trocar o pneu furado por um prego de cerca, numa borracharia local. Tivemos certeza que foi uma maldição por tantas cercas puladas! Tomamos enfim o caminho de casa, onde apostas sobre o a presença de belas muchachas nos pedágios, me assegurou 3 cervejinhas na conta do Juliano, a ser paga no último grampo! Ah, sim:- ainda estamos comendo maçãs!
Nelson Brügger (ACM e CERJ) & Juliano Perozzo (ACM)
Matéria de: Nelson Brügger
VOCÊS ESTÃO DE PARABÉNS
NÃO VEJO A HORA DE CAMINHAR NESSE LUGAR FANTÁSTICO