Ganbaru – Nova via na Gruta da 3ª Légua

Ganbaru

Após uma escalada na Gruta, o pessoal entrando na via “do piton à chapeleta” me lembrou da história dessa rota conquistada pelo Cristiano Backes e eu. Durante a ascensão, em artificial, no negativo, ao se suspender nos pitons com os estribos, os pitons se moviam mas não sacavam, talvez porque fosse apenas o peso do corpo e não uma queda. Mas dava um nó no estômago e um piton após o outro conseguimos vencer o negativo, surreal. Um tempo depois o Vini, após pedir permissão para inserir chapas na via pra fazer “em livre”, a qual foi dada, rebatizou a via.
Ali do lado, à esquerda da via Bracatinga, vi uma parede limpa, sem via, alguns pequenos trechos molhados mas quase tudo seco e limpo e um bloco de rocha aparentemente solto no início.
Fiquei viajando em conquistar uma via ali.

Outro dia fui com a Lise passear mas era desculpa só para fotografar a linha e depois ficar viajando nas fotos.
Fiquei louco para dar início nessa conquista.

Após concluir um trabalho, combinei com o Maikon Vieira a conquista da via no dia seguinte, pela manhã, e depois fazer o resgate dele num vôo de paraglider à tarde.
A noite que antecedeu fiquei tenso, nas fotos não conseguia achar caminho melhor que o que vi no primeiro momento, e parecia o caminho mais duro.
Conforme combinado, 8h o Maikon passou lá em casa e eu já estava esperando na calçada com a mochila com cerca de 20kg. Além dos materiais de escalada, furadeira, chapeletas e chumbadores, pitons, martelo, clifs, estribos etc.

Sem demora, entrei na parede que inicia fácil e coloquei um piton na fenda e depois a primeira chapa. Logo o primeiro veneno com agarras micros e molhadas e o bloco aparentemente solto logo acima. Um furo para cliff e logo a segunda chapa, do lado do bloco solto. Numa posição desfavorável não consegui aplicar força no bloco para derrubá-lo. Sem usá-lo segui com movimentos bonitos numa espécie de diedro aberto, uma oposição seca, de uma falange, e pés ganhando altura nas aderências. Mais um furo de Cliff e a terceira chapa. Dali foi mais fácil derrubar o bloco solto após combinar com o Maikon para sair da linha da queda. Mais trabalhos de oposição, microagarras e abauloados para os pés até alcançar uma agarra boa, de uma falange, cavada e excelente para o cliff. Ali foi a quarta chapa. Agora a sequência ficou muito dura, com agarras muito pequenas e uma travessia à direita abaixo de um teto e com pés nas aderências lisas e uma agarra invertida que não conseguia evoluir.

Mais um furo para cliff para ganhar distância e a quinta chapa. Esta foi posicionada para evitar, além da queda, o contato da corda com uma aresta afiada. Ali tem que por uma costura curta. Este lance parece ser o crux, da quarta para a quinta proteção. Dali a via ganha movimentos mais clássicos de parede grande e a sexta chapa. Com a rocha num grip muito bom e agarras melhores porém movimentos de grande envergadura rola a sétima e última chapa. Os posicionamentos das proteções foram para diminuir o arrasto e também evitar que a corda pegasse em arestas. Agora é só subir um pouco mais e chegar na parada dupla.

A investida toda durou cerca de 4h15min e agradeço ao Maikon pela paciência e pelo empenho. Ele ainda se prontificou a sacar os 2 pitons das fendas enquanto eu tentava me limpar da poeira dos furos e da limpeza da rocha para facilitar o uso das aderências. Algum microorganismo liberado na limpeza deixou marcas no pescoço e na barriga, tipo uma alergia.
Após ele descer puxamos a corda pra fazer a primeira repetição.

Novamente aquele frio na barriga.

Com as costuras na parede entrei e fui subindo, livrando tudo, exceto o crux. Os braços, em especial os dedos das mãos, com cãibras, se contorcendo devido às microagarras e passei o crux no artificial (A0) e livrei também o restante. Fica o desafio para os mais fortes passar o crux e confirmar a graduação.

O nome da via foi sugestão da Lise (minha esposa) e caiu como uma luva. O esforço foi hercúleo e sem trégua até o fim, coroando a dedicação. Ganbaru, 7c, (8a,b/A0), 18m, 7 proteções fixas e a parada dupla.

A graduação entre parênteses é uma sugestão e aguarda definição. O A0 é o grau do artificial caso não consiga mandar (se puxa na costura ou coloca um estribo ou fita para evoluir).
O nome é uma palavra de origem japonesa que traduz o empenho na conquista, vencendo as adversidades e fazendo o melhor possível.

Logo depois fomos para a Rampa Sul, onde o Maikon, com toda tranquilidade, abriu a vela do paraglider, se despediu e alçou um lindo vôo.

Fui buscar ele no pouso do Ninho das Águias e voltamos felizes pelo dia de pura aventura.

Juliano Perozzo, 29/10/2026.

 

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